Dados do IBGE Apontam Situação Crítica da Agropecuária do Município de Sítio do Mato

Written by: Editorial

O setor agropecuário é a principal atividade produtora de riqueza do Município de Sítio do Mato, no Oeste da Bahia. Apesar de não estar nas estatísticas oficias todas informações, o setor é a principal fonte de renda e de ocupação para diversas famílias.

Nos dados oficiais do IBGE (último em 2015), a agropecuária sitiomatense representa 23% do chamado Produto Interno Bruto (PIB), o indicador que mede a produção da economia do município. Em 2007, este setor chegou a representar 36% do PIB de Sítio do Mato, uma queda assustadora para a maioria dos especialistas.

Mesmo estando situado na famosa fronteira agrícola, que envolve as áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia (MATOPIBA-Portaria nº 244 de novembro de 2015), o município possui ainda uma produção pouco relevante e vários subempregos, baixa integração produtiva e tecnologia deficiente, o que o afasta dos demais municípios pujantes da produção agropecuária do Oeste da Bahia.

Os dados de empregos formais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), em 2016, indicaram que Sítio do Mato possuía 195 pessoas empregadas no setor agropecuário, isto é, 25% de todos os empregos formais do município. Os empregos formais são aqueles constituídos de carteira assinada e de todos os direitos, como encargos trabalhistas, previdenciários, 13º salário, FGTS e outros.

Se fosse levado em conta os ocupados na atividade, este número seria bem maior, o que poderia envolver cerca de 3 mil pessoas ou mais. Isto porque parte significativa dos produtores trabalham por conta própria e empregam os demais familiares na propriedade, o que acaba não sendo computados nos dados de empregos formais oficializados pelo MTE.

Nossa equipe realizou uma ampla análise e conversou com alguns dos melhores especialistas na região e também com alguns consultores para tentar entender os números e as dificuldades do município nessa área tão fundamental para o desenvolvimento.

Produção Agrícola

Com base nos dados da Pesquisa Agrícola Municipal (PAM) de 2016, do IBGE, a área plantada avançou 170% em relação a 2007. O valor da produção cresceu 80%, somando R$12,4 milhões. A estiagem afetou a produção, por um lado, mas pressionou os preços por outro, o que acabou influenciando os valores da produção agrícola.

A cultura de feijão e de milho se destacaram na área plantada, porém na produção em si, mamão e mandioca tem sido preponderante na quantidade produzida. O valor da produção ficou concentrada em feijão, com R$ 5,7 milhões, e mamão com R$ 4,9 milhões. (clique na imagem para ampliar)

Entre os produtos apresentados, somente feijão, milho e sorgo tiveram crescimento em relação a 2007. Agrônomos afirmam que a falta de alternativa para outras culturas levou os produtores a ampliarem a área cultivada das tradicionais, pois estas exigem menos investimentos e atende a demanda de curto prazo dos produtores, vira uma espécie de última tentativa.

Em conversa com Sóstenes Santana, Técnico em Agropecuária e Graduando em Engenharia Agronômica pelo IFBA-Bom Jesus da Lapa, ele afirma que de fato "alguns produtos podem não estar nas estatísticas oficias, mas temos produção de outros produtos como abóbora, batata e hortaliças em geral que são relevantes. O que falta é ampliar a escala de produção."

No quadro apresentado, chama a atenção que a cultura de milho teve 6,9 mil hectares destinados a plantação em 2016, tendo colhido apenas 972 toneladas, isto é, 0,14 toneladas por hectare (t/ha). Nos anos 2000, este número foi de 1,63 t/ha.

Ainda segundo Santana, "as colheitas de milho e feijão deveriam ser maiores se não fosse a exigência de água durante o crescimento das culturas."

Outros produtos que tiveram relevantes baixas, tanto na área plantada quanto na produção, foram banana, coco, goiaba, mandioca e manga; mas o destaque foi algodão e mamona que zeraram no município. Sóstenes afirma que a produção de algodão despareceu no município em razão da "necessidade de melhores conhecimentos do manejo da lavoura, seja pela exigência do controle da rebrota e também devido as pragas, como o bicudo."

Os números apresentados até então se resumem numa situação em consequência da estiagem "em que muitos produtores diminuem ou suspendem as atividades exercidas na propriedade temporariamente e, em casos críticos, esta parada pode ser definitiva", afirma o zootecnista Eliveuton Lopes.

De acordo com Engenheiro Agrônomo, Maxuel Araújo, "o mundo estar passando por grandes mudanças climáticas e esse é um fator do qual a agricultura depende significadamente, podendo, dessa forma, afetar a região."

Produção da Pecuária

A pecuária sitiomatense é outro segmento que vem sofrendo baixas ao longo do tempo. Os dados apresentados pela Pesquisa da Pecuária Municipal são alarmantes, um vez que todos os rebanhos apresentaram queda, como é o caso da redução de 72% do valor da produção de origem animal.

Mesmo tendo grandes fazendas de pecuária de corte, o efetivo de bovinos do município apresentou significativa redução, o que além de impactar nos dados do setor agropecuário reduz o emprego e a geração de renda. O efetivo bovino de 2016 somou 35,2 mil bovinos, contra 51,1 mil em 2007; queda de 31%. (clique na imagem para ampliar)

O número de vacas ordenhadas é um indicador importante do campo, pois seus resultados são advindos em sua maioria da agricultura familiar, principalmente se tratando de ocupação e renda. Em 2016, a queda foi de expressivos 78% em relação a 2007, passando de 9 mil para 1,9 mil vacas ordenhadas.

Para o zooetecnista Eliveuton Lopes, "a pecuária leiteira foi um dos segmentos mais afetados nos últimos anos em razão da seca, com perca de animais e também a venda abaixo do preço para outras regiões, devido a falta de alimentos", o que pode explicar estas baixas.

Outro dado preocupante foi a redução do número de galinhas, considerado como principal meio de subsistência das família, seja como segurança alimentar e/ou como fonte de renda miníma. De acordo com a pesquisa do IBGE, em 2016 foram contabilizados 6 mil cabeças de galinhas, enquanto em 2007 este número era de 21 mil unidades, isto é, um queda de 71%.

Em razão da queda do número de vacas ordenhadas e do número de galinhas, a produção de origem animal sofreu enormes prejuízos, prejudicando o já baixo nível da renda dos produtores. (clique na imagem para ampliar)

Sítio do Mato produziu aproximadamente 1,5 milhão de litros de leite em 2016, cerca de 70% a menos que em 2007, quando foram produzidos 4,8 milhões de litros. O valor da produção em 2016 somou o equivalente a R$ 1,5 milhão, isto implica que o preço médio do litro de leite no período foi em torno de R$ 1.

Eliveuton é enfático ao afirmar que "a maioria destes produtores de leite é na verdade tiradores de leite, uma vez que não possuem estratégia nenhuma de produção; só tira o que a vaca dá. Não fazem trabalho de melhoramento genético no rebanho e nem adquirem tecnologias ligada ao meio." Em razão disso, podem estar expostos ao ciclo de seca e de chuva sem saber se planejar.

Enquanto isso, a produção de ovos foi reduzida em 48%, atingindo a marca de 43 mil duzias em 2016. Em 2007, a produção foi de 84 mil dúzias.

Um produto que entrou na pauta em 2016 foi a produção de 1,6 toneladas de mel, aparacendo pela primeira vez nas pesquisas do IBGE. O valor da produção somou R$ 19 mil, o que equivale a R$ 11,8 o litro produzido.

Produção Extrativa Vegetal e de Silvicultura

Os indicadores da Pesquisa Extrativa Vegetal e Silvicultura Municipal (PEVS), também do IBGE, mostram uma forte retração deste segmento em Sítio do Mato. O valor da produção saiu de R$ 30,6 milhões em 2007 para R$ 7,2 milhões, queda de 76,4%. (clique na imagem para ampliar)

Se por um lado os efeitos climáticos tem diminuído a produção de frutos, por outro, a extração vegetal tem sido submetida a uma maior fiscalização dos órgãos ambientais. Mesmo que tenha ocorrido perdas financeiras, o município ganhou em termos ambientais no atual cenário de fortes mudanças climáticas.

As produções de carvão, lenha e madeira estão cada vez menos representativa no município, cujo a variação de 2016 em relação a 2007 foi negativa na casa dos 83%. Por muito tempo essa extração esteve associada ao programa de Reforma Agrária, quando se criaram uma grande quantidade de Assentamentos Rurais, além de um ofensiva exploração das carvoarias mineiras sobre a região.

A produção de madeira em tora em 2016 de Sítio do Mato foi de 19,3 metros cúbicos, queda de 82,2% em relação a 2007. O que chama a atenção é que este número representa 5,58% da produção baiana deste tipo de produto extrativo. Em 2007, Sítio do Mato produzia assustadoramente cerca de 10% da produção de madeira de toda a Bahia.

O umbu é o produto alimentício de maior relevância no extrativismo sitiomatense, tendo sua produção contabilizada em 7 toneladas em 2016, 41,7% menos que em 2007. Mesmo tendo queda em sua produção, em valor houve crescimento, principalmente em razão da estiagem. É um alimento que serve tanto para alimento familiar como para comercialização.

Apontamentos

A maioria dos especialistas consultados atribui a baixa tecnologia empregada, a estiagem, o conhecimento limitado de maioria dos produtores e falta de apoio dos órgãos públicos como fatores para o baixo desempenho da agropecuária sitiomatense.

Em conversa com o consultor Anderson Leite, ele afirma que de modo geral acredita que "a agropecuária tem condições de ser o carro chefe do desenvolvimento sitiomatense. Só que para isso precisa de vontade política e das instituições públicas agirem de forma eficiente. Nossos produtores rurais ainda estão desenvolvendo suas atividades com pouca ou nenhuma cobertura do Estado, exceto, claro, os grandes produtores."

Chamando a atenção para um ponto importante, Leite pondera que "hoje observamos os produtores desenvolvendo suas atividades com conhecimento do século passado, enquanto temos diversos profissionais formados em Sítio do Mato, Gameleira e região, como técnicos agrícolas, zooetecnistas, agrônomos e estudantes da área agrícola do IFBA-Bom Jesus Lapa sem serem aproveitados. Um programa local com a contratação ou estágio destes profissionais poderia revolucionar a agropecuária no município."

Maxuel Araújo aponta que "a principal medida é ter a presença do poder publico dando assistência técnica de forma efetiva , capacitando e dando condições de trabalho para o produtor rural e em contra partida os produtores". Buscar "parcerias, consócios e convênios juntos a entidades publicas e privadas também seria um iniciativa importante", destaca o agrônomo.

Assim como foi unânime na maioria dos argumentos dos consultados e todos especilistas, o modelo da agropecuária do município precisa inovar urgentemente. É necessário um refundamento das associações e criações de cooperativas para potencializar o setor, além de buscar inserir o município no mercado cada vez mais competitivo.

As propriedades do município possuem terras férteis e de boa qualidade, boa disponibilidade hídrica, bem localizadas na região e com infraestrutura boa (ainda resta a recuperação da BA-161, entre Gameleira e BR-242). Resta apenas ter produtividade e produção em escala, elementos importantes que possam gerar renda e emprego a toda população sitiomatense.

 

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